Moda

William Morris: Moda e Arte

outubro 09, 2017 Por Ci Pires

Semanas atrás, Camile Arndt pediu se eu gostaria de escrever uma coluna mensal em sua revista. Jamais recusaria, especialmente pensando sobre esse nosso interesse em comum em estudar por toda a vida. Eu admiro de verdade o trabalho dela no O Vestido da Rainha porque vejo seu ponto de vista coletivo. Ela me ensina muitas coisas. Eu aluna, ela professora.

Estou muito grata pelo convite em escrever as linhas (bem orgânicas) de uma pensante. Quem não é? Todos somos. E somos porque gostamos de compartilhar conhecimento e experiências vividas. Assim espero que lhes agrade as linhas, aos olhos e também ao coração. Estou ciente de que com um time de colunistas desse, a responsabilidade é grande, então, prazer em conhecer a todos os demais colunistas dessa sessão.

Andando pelas terras da Rainha, não é difícil você reverenciar tanta informação interessante, tanta pluralidade, tantos recantos de uma história bem cuidada e aparada pelas belezas da memória. Ter sido professora por quase quinze anos na área de moda, me ensinou também a me ensinar, a me apaixonar por pesquisa, arte e história. Nesse sentido, gosto da ideia de compartilhar uma fotografia feita com os olhos da alma, trazer elementos destes mundos e como eles podem despertar a nossa curiosidade, instigar o nosso pensamento e a nossa imaginação.

Talvez eu esteja tentando te convidar para fazer uma espécie de trilha por historietas da moda e da arte, assim a gente pode ter a sensação de sair das informações comuns ou muito abrangentes. Quem sabe, nesses recortes urbanos, a gente encontre pedacinhos de histórias que estamos interessados em saber porque já lemos de tudo. Eu não quero chamar de ‘curiosidades’ porque dá a sensação de ser um termo raso. Então fica assim: vamos passear pelas terras da rainha e encontrar portinholas, papeletas, historietas, pequenos conteúdos, bordados, estampas, casos, por dentro do forro, no sótão, ou talvez uma fofoca vitoriana (engraçadinha) e nesses becos, encontrar razões para que essas historietas façam também sentido em nossas vidas.

Tem, por exemplo, ao norte de Londres, uma galeria fora do convencional, que pra qualquer apaixonado por moda ou design, seria de arrancar suspiros. Sabe quando a gente acha um lugar e: quer levar ele pra casa? Quer comprar tudo o que tem ali? Quer morar ali? Absolutamente se sujeitaria a ser porteiro 24 horas por dia só pelo prazer de estar ali rodeado por todas aquelas memórias? Já quis se jogar no chão, rolar de prazer intelectual, beijar as paredes e dizer “não é só nos livros que existe isso, é em carne e osso”? Sim, esse. Bem no miolo da galeria, depois de passar pela “lojinha-tentação” (porque eu pelo menos, já começo o delírio nos souveniers), me deparo com um processo criativo emoldurado.

Estou te dizendo que estou dentro da William Morris Gallery. A vida dele você vai fuçar num site de buscas, mas o processo dele, esse bem bonito emoldurado, eu mesma te conto. Porque ele é portinhola. Chega aqui: na William Morris Galley tem exposto objetos de todo tipo do que foi o seu grande intento. Mas bem no miolo tem duas ou três telas mostrando como ele desenvolvia o processo criativo de suas estampas para papéis de parede e tecidos.

Num pedaço de papel antigo, tingido de um café escorrido, com vincos extremos de dobradura e rasgados pelos aniversários do tempo, de um lado uma coluna de florais estilizados com arabescos desenhados a lápis. Espelhada, essa coluna se refletia simetricamente, e então preenchida com o estudo de cores. Uma cartela limitada em poucas cores aquareladas para que o processo de estamparia não se tornasse excessivamente caro e poudesse ser desenvolvido para todos aqueles que se sentiam abusados pela má qualidade dos produtos de produção em massa. Morris queria que as pessoas vivessem em espaços bonitos, que cada coisa fosse escolhida ao menos com boa intenção, com zelo, com propósito consciente. Ele tinha um bom coração.

Aos desenhistas, estimulo tentar a técnica: ela não é fácil (tentei exaustivamente), mas se trata de uma coluna de arabescos ou geométricos a gosto, que irá se espelhar da esquerda para a direita. Depois preencha os “buracos” que vazam pelo espelhamento. Espelhe ainda mais uma vez para a direita e siga criando mais elementos nos espaços vazados. O procedimento fica mais simples quando espelhar a norte e sul. Você vai ter um padrão ao estilo William Morris.

Ainda que não queira tentar ou não se interesse pelo conteúdo das estampas, repare à sua volta como se dispõem os objetos. Minha irmã dizia uma coisa interessante : “mesmo o mendigo tem casa, sua casa são suas coisinhas, ninguém vive sem suas coisinhas”. Ela estava querendo dizer que parte do que somos é projetada nos objetos que escolhemos carregar ou colocar para viverem conosco. Tais coisas são também importantes na vida, elas nos ajudam a dizer quem somos para nós e para os outros. Do contrário, viveríamos bem numa ilha deserta sem o “Wilson” (Náufrago). Logo, Morris reparava como estar rodeado de aparatos que nos dizem, são escolhas que devem ser sábias e que a beleza delas é importante para o nosso bem viver.

O artista se inspirava em elementos de outras culturas para suas criações, o que tornava tudo muito rico e interessante. Rejeitava a ideia de produzir produtos descartáveis estimulados pelo consumismo, incentivava que cada um de seus trabalhadores pudessem  criar livremente, escreveu livros de poesia, atuou ativamente na política. Em tudo, seu olhar era pelo bem coletivo. Quanto dessa qualidade colocamos em ação em nossas vidas e em nossas escolhas? Quanto do que somos, escolhemos e consumimos tem um olhar coletivo? Quais objetos que carrega ou moram em sua casa ajudam a falar sobre você? Morris é uma portinhola bem interessante para adentrar.

Nessas andanças infinitas, desenhei trilhas para compartilhar contigo. Desenhei mapas ao estilo Goonies, rabisquei roteiros, fiz colchas de retalhos, recolhi anotações, tirei fotos, pensei nas caminhadas, nos trajetos. Cada detalhe conta um trechinho, cada uma traz luz a alguma coisa da vida. Tem bastante coisa interessante pra dividir contigo. Mês que vem te conto mais!

Ci Pires

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